A Rota das Abolições da Escravidão
e dos Direitos Humanos
 
  O grito dos humildes de champagney de 1789

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O reinado de Luis XVI foi marcado por dificuldades econômicas e um déficit crescente das finanças públicas. Esta dívida foi agravada pelo custo das guerras da América que consumiram aproximadamente 60% da tesouraria do Estado. Além da crise financiera, acrescentou-se uma crise social. Durante a Idade Média, a sociedade francesa era dividida em três ordens : o clero, a nobreza e o Terceiro Estado. Se os primeiros gozavam de todos os privilégios, 98% dos franceses que pertenciam ao Terceiro Estado não suportavam mais a desigualdade na taxação dos impostos.

A crise da autoridade do Antigo Regime alcança seu nível máximo e este se vê gravemente contestado pela influência das proposições ideológicas da filosofia das Luzes. Das idéias de Voltaire e Rousseau se destacam duas reinvidicações: a soberania do povo e a igualdade dos impostos.



Em 1788 a crise alcança seu ponto máximo e a única alternativa, negada pelo Parlamento, reside na supressão dos privilégios e na igualdade de pagamento dos impostos. A Luis XVI, cabe então convocar os Estados Gerais para o dia 5 de
maio 1789.

Em todo o reinado da França se abrem as eleições para deputados e a redação dos Cadernos de Queixas por parte dos seus 28 milhões de habitantes.

Nas vésperas da Revolução, Champagney é uma aldeia «dos cem fogos» onde vivem habitantes humildes (camponeses, mineiros, carpinteiros) que conhecem o significado de trabalho árduo e sofrem em uma terra pobre onde o clima é muito rigoroso.

igreja de Champagney
igreja de Champagney

Na dificuldade da sua vida cotidiana, os humildes de Champagney têm ao menos um motivo de alegria: sua nova igreja. Este local de preces onde se reúnem, se transforma no momento da saída, em lugar de debate de idéias e tomada de decisões comunitárias. O inverno de 1788-89 foi terrível: à falta de alimentos e ao frio se somaram os altos impostos e as corvéias. Por isso, quando o cura lança o apelo para a redação do Caderno de Queixas, os habitantes vão responder a esta chamada.

Cuadro da “Adoração dos Reis Mayos“
Cuadro da “Adoração dos Reis Mayos“

Entre essa gente simples e sem meios, que agrupada  naquele dia 19 de março de 1789 discute suas reivindicações, está um nobre, Jacques Antoine Priqueler,  nascido em Champagney e oficial na Guarda do Rei em Paris. Ali freqüênta os salões iluminados da capital e  próximos à  sociedade abolicionista dos « Amigos dos Negros ».

Esse oficial vai explicar-lhes o terrível tratamento que recebem outros homens pelo mundo: seu cativeiro na África, o sofrimento na travessia rumo às Américas, sua venda em mercados de negros como se fossem  animais e o trabalho árduo desses escravos nas Antilhas. A única culpa daqueles homens: ter nascido com a pele negra.

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Para os habitantes de Champagney a história relatada pelo oficial constitui uma total surpresa e descobrir que existem homens com a pele negra parece ainda mais incrível. Muito embora nunca tenham visto nenhum negro, ja conhecem um, representado em um quadro do século XVI em sua igreja: a Adoração dos Reis Magos. A visão deste homem Negro, constituído como eles e figurando em um quadro religioso surge para esses humildes, como uma revelação.

Acostumados eles mesmos ao sofrimento e às dores, comovidos pelo relato do oficial e pela visão do homem negro e cristão, os habitantes de Champagney vão redigir na praça do município suas queixas, essas ultimas ligadas à dureza das suas vidas e incorporar no Caderno  o artigo 29, no qual pedem a abolição da escravatura.

“Os habitantes de Champagney não podem pensar nas dores que padecem os negros nas colônias sem ficar com o coração penalizado pelo seu maior sofrimento e se considerando como seus semelhantes, além disso unidos a eles pela religião, e sabendo que são tratados como se fossem animais.

Não podem imaginar e aceitar que os produtos dessas colônias possam ser consumidos sem esquecer que foram regados pelo sangue dos seus semelhantes: com razão, receiam que as gerações futuras, mais educadas e mais filósofas, possam acusar os franceses daquele século de terem sido antropófagos, ou se opor ao fato de sermos franceses e mais do que tudo  cristãos.

Por isso, sua religião lhes manda  suplicar humildemente a Sua Majestade o Rei Luis XVI de acordar os meios para esses escravos serem reconhecidos como cidadãos úteis pelo Rei e pela Pátria.”

assignaturas dos humildes de Champagney
assignaturas dos humildes de Champagney


intérior da casa da Negritude
intérior da casa da Negritude

Este desejo de Champagney aparece sendo hoje
duplamente excepcional :

- entre os 36.000 municípios que redigiram cadernos, apenas 20 mostraram comoção a favor da emancipação dos escravos, mas com uma certa ambivalência entre o motivo humanitárioe a preservação dos intereses econômicos. Somente o artigo 29, escrito em Champagney, mostra uma condenação clara, sem hesitação e totalmente humanista.

             - Na cólera dos justos de Champagney se encontram não somente os princípios filósoficos condenando a escravidão, como o fizeram os grandes intelectuais da época, mas também fortes argumentos chamando ao boicote econômico.

Mais de 50 anos antes do aparecimento dos grandes movimentos populares contra a escravidão, os humildes de Champagney, em sua maioria analfabetos, tinham lançado o primeiro grito de protesto. Para nunca esquecermos este caso único foi aberta, en 1971 em Champagney,  a “Casa da Negritude e dos Direitos Humanos”.

 

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